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Pesquisador afirma que Greenpeace manipulou dados sobre corais na Foz do Amazonas

O pesquisador Luís Ercílio Faria Junior denuncia manipulação do Greenpeace

Publicado em 06/06/2023
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Ediante de um escândalo internacional e que deve ser tratado com a gravidade que ele merece. É uma questão de Estado e soberania. O Greenpeace tem sido apontado como autor de uma grande distorção de informações sobre a Margem Equatorial brasileira. É um caso que precisa ser apurado minunciosamente, pois se trata de uma ONG internacional que está criando uma atmosfera, com informações irreais, de modo a impedir a execução de um grande projeto nacional – a exploração de uma nova fronteira de petróleo no país. Por isso, o Petronotícias inicia o noticiário desta semana entrevistando o pesquisador Luís Ercílio Faria Junior, doutor em Ciência Naturais da Universidade Federal do Pará (UFPA).

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Ele esteve envolvido diretamente por vários anos na pesquisa da plataforma continental da região Norte do país, ajudando inclusive a formar pesquisadores paraenses. O especialista alerta que a ONG ambiental foi responsável por propagar uma informação científica “fake” nos últimos anos. Em 2017, o Greenpeace alardeou para o mundo a existência do que chamou de “Corais da Amazônia”. Desde então, a ONG internacional encabeçou uma campanha contrária a qualquer iniciativa de explorar o potencial petrolífero da região. No parecer em que negou à Petrobrás a licença de perfuração de poços na Margem Equatorial, uma das alegações apresentadas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) foi justamente a existência desses corais. Para aqueles que ainda duvidam das intenções das milhares de organizações não governamentais internacionais baseadas na Amazônia brasileira, esse é um bom exemplo.

De acordo com Luís Ercílio, o Greenpeace manipulou dados e informações de diversos estudos científicos realizados ao longo de décadas. Conforme noticiamos, o ex-ministro da defesa Aldo Rebelo declarou que essas manipulações são base das decisões do IBAMA, que não tem estrutura para fazer um estudo semelhante. Porém, segundo Ercílio, na verdade, os “corais ameaçados” tão propagados pela ONG correspondem a um outro tipo de estrutura: “Os mapas oficiais garantem que as regiões indicadas pelo Greenpeace como ‘Corais da Amazônia’ são, na verdade, rochas calcárias”, alertou. “Eu diria que os dados foram manipulados. A verdade é que os mapas geológicos oficiais, a partir de todos os estudos feitos na plataforma continental, indicam que a região assinalada pelo Greenpeace como Corais da Amazônia são rochas carbonáticas ou calcárias”, frisou o pesquisador. O especialista também não acredita que as fotos de corais propagadas pelo Greenpeace desde 2017 sejam realmente da região da Foz do Amazonas. “As fotos e vídeos apresentam alguns organismos que não característicos da foz do Rio Amazonas. Aí voltamos àquela questão de manipulação, que citei anteriormente: o uso indevido de uma foto de outra região ao lado de uma informação sobre a plataforma continental brasileira. Isso não é aceitável”, afirmou.

Professor, esse é um assunto bastante técnico e há ainda muitos detalhes pouco esclarecidos sobre as pesquisas realizadas na Margem Equatorial. Para começar nossa entrevista, poderia apresentar aos nossos leitores uma visão geral sobre os estudos geológicos realizados naquela região ao longo dos últimos anos?

Para começar, é importante mencionar que a plataforma continental do Norte do Brasil já foi estudada por muitas instituições. Durante os anos 60, 70 e 80, foram realizadas expedições científicas na região, com navios da Marinha e pesquisadores dos estados do Sudeste. Essas expedições eram chamadas de GEOMAR e foram idealizadas pela Diretoria de Hidrografia e Navegação da Marinha do Brasil. Depois, novos estudos foram conduzidos pelo Departamento Nacional da Produção Mineral (DNPM, atualmente chamada de Agência Nacional de Mineração) e o Serviço Geológico do Brasil (CPRM), em parceria com instituições de pesquisa do Sudeste e do Sul. Foi assim que começaram a ser produzidos os primeiros mapas da plataforma continental do Norte do Brasil.

No final dos anos 70 e início dos anos 80, já havia um desejo entre os pesquisadores do Pará de desenvolver estudos locais sobre a plataforma continental. Então, iniciamos uma cooperação com o governo da Alemanha, juntamente com a Universidade de Berlim, para desenvolver pesquisas sobre esse tema. Nós recebemos o apoio de físicos de outros países e contamos ainda com equipamentos modernos e barcos de apoio – uma estrutura que muitas instituições brasileiras não tinham naquela época.

Eu participei desse grupo de pesquisadores quando retornei do meu doutorado na Alemanha, em 1983. Nesse período, chegamos à conclusão de que era preciso ter um grupo de pesquisa local voltado para os estudos da plataforma continental da região.

O projeto de criação do curso de graduação em Oceanografia da UFPA foi assinado e aprovado em 1999. Esse curso teve como embrião o Programa de Pesquisas em Ciências do Mar (PROMAR), coordenado por mim.

Durante dez anos, dentro do PROMAR, fizemos cooperações com a Universidade de Kiel, que é uma das grandes lideranças internacionais europeias em geofísica. Também realizamos cooperações com a Marinha e universidades norte-americanas. Um dos principais projetos que realizamos foi o AMAS-SEDS (Amazon Shelf Sedimentary Studies), que foi um programa de estudos da Foz do Amazonas e da plataforma continental, envolvendo mais de 200 pesquisadores de várias universidades brasileiras e norte-americanas. Ao todo, foram quatro anos de pesquisa, com quatro cruzeiros nas quatro diferentes situações da descarga do Rio Amazonas. Esse foi um estudo enorme que rendeu dezenas de publicações científicas. A UFPA fez parte de todo esse esforço conjunto para levantar dados e informações sobre essa região.

Agora, vamos falar sobre o processo de licenciamento da Petrobrás na Margem Equatorial. O parecer do Ibama, que negou a licença, cita, a existência de um “vasto ecossistema recifal recém-descoberto sob a pluma da foz do Rio Amazonas”. O que, de fato, as pesquisas realizadas pelo senhor e outros pesquisadores indicam sobre os corais naquela região?

No Brasil, só existem seis espécies de corais vivos, que são encontrados na região nordestina. As condições ambientais para formação de corais são muito específicas. O sistema recifal sob a pluma do Amazonas, citado pelo Ibama em seu parecer, são as rochas que nós chamamos de “carbonáticas” ou “rochas calcárias”. Não são corais vivos. Um exemplo de sistema recifical no Brasil acontece especialmente na costa de Recife, capital de Pernambuco.

Para entender como começou essa mistura de terminologias, é preciso voltar um pouco no tempo. Em 2017, eu participei de uma audiência pública do Ibama, aqui no Pará, sobre o licenciamento da perfuração de poços da BP na Foz do Amazonas. O evento tinha mais de mil participantes. Um fato que me chamou a atenção naquela audiência pública foi a exibição de um mapa que mostrava uma extensa área, do Amapá até o Maranhão, que seria formada por recifes de corais. Essa imagem estava sendo projetada em tela e também constava em centenas de folders distribuídos pelo Greenpeace. Porém, esse mapa apresenta uma informação equivocada.

Por isso, eu pedi a palavra na audiência pública e expliquei aos presentes que o Brasil dispõe de mapas geológicos oficiais, elaborados pelo CPRM. O mapa geológico oficial da nossa plataforma continental indica que as áreas em amarelo, identificadas pelo Greenpeace como corais, na verdade são rochas calcárias. Isso está documentado. Não é o professor Luis Ercilio que está contestando a existência dos corais. Estou falando aqui de Ciência pura e aplicada.

Ainda durante a audiência, eu disse que quem considerou usar aquele mapa distribuído pelo Greenpeace durante a audiência cometeu um erro. O mapa apresentado no material do Greenpeace não possui base no rigor científico. Além do mais, o Greenpeace não é uma instituição científica. Por isso, eu sugeri ao Ibama que o mapa que deveria ser utilizado seria o mapa geológico oficial do Brasil, disponibilizado pelo CPRM. É bem verdade que existem algumas publicações científicas que indicam a existência de corais na região. Mas, veja, isso faz parte do debate científico.

Agora, eu considero um equívoco adotar uma audiência pública do Ibama adotar um mapa feito por uma instituição não científica.

Ao seu ver, qual foi o peso dessas informações repassadas pelo Greenpeace na tomada de decisão do Ibama?

Existem vários aspectos que foram considerados para que o Ibama negasse a licença ambiental para a Petrobrás. Nós estamos tratando aqui de um deles, a existência dos corais. Os mapas oficiais garantem que as regiões indicadas pelo Greenpeace como “Corais da Amazônia” são, na verdade, rochas calcárias. Os pesquisadores e até mesmo o Ibama devem sempre considerar os mapas geológicos oficiais.

É difícil avaliar o peso do impacto causado por esse mapa do Greenpeace. Mas posso dizer que foi muito forte e influenciadora a ação realizada pela ONG naquela audiência pública de 2017. Não é possível avaliar até onde isso influenciou os técnicos do Ibama. Logo depois, houve um movimento de mobilização em torno desse tema, com direito a manifestação de ambientalistas em uma praia no Rio de Janeiro.

O senhor pode fazer uma distinção entre corais vivos e as rochas carbonáticas?

Rochas carbonáticas, como o próprio nome sugere, são rochas consolidadas, formadas a partir de materiais orgânicos. Já os corais são organismos vivos. Os chamados recifes de corais são construções orgânicas de corais.

Qual a distância entre essas rochas carbonáticas e o local onde a Petrobrás pretende perfurar o poço?

O poço de pesquisa planejado pela Petrobrás ficará em uma lâmina d’água de 2 mil metros. Ele ficará a 500 km da foz do Rio Amazonas e a cerca de 150 km da costa do Amapá. O poço está muito longe da margem da plataforma continental, onde estão esses bancos carbonáticos. Importante lembrar que o Brasil já perfurou muitos poços no Sul e no Sudeste na plataforma continental. A exploração de bacias petrolíferas no país já acontece há muitos anos. O Brasil desenvolveu essa tecnologia para perfurar poços em águas profundas.

Importante lembrar ainda que o nível do mar está elevando-se ao longo dos séculos. Então, o que hoje é a plataforma continental do Brasil é uma zona adjacente ao continente, que já foi terra firme há 10 mil anos. No local onde hoje atualmente é fundo do plataforma continental, há 10 mil anos era um local onde o mar era raso. Naquele período, sim, poderíamos ter as condições para a existência dos corais (nível do mar, luminosidade, clima seco, entre outras).

O ex-ministro Aldo Rebelo chegou a afirmar categoricamente que as pesquisas da UFPA teriam sido falsificadas pelo Greenpeace. Poderia comentar essa acusação?

Como eu expliquei antes, existem estudos de diferentes pesquisadores e instituições sobre a Margem Equatorial. E o debate científico sobre o tema continua. O que eu não concordo é com a forma que esse mapa foi produzido e divulgado pelo Greenpeace, como se fosse uma verdade absoluta. Incomoda muito o fato de um documento não consolidado, como esse produzido pelo Greenpeace, ter sido adotado pelo próprio governo brasileiro.

Eu diria que os dados foram manipulados. A verdade é que os mapas geológicos oficiais, a partir de todos os estudos feitos na plataforma continental, indicam que a região assinalada pelo Greenpeace como Corais da Amazônia são rochas carbonáticas ou calcárias. É só consultar o mapa geológico oficial do Brasil.

Ou seja, acho que houve, por parte do Greenpeace, um uso indevido dos trabalhos realizados por diversas instituições científicas que estudaram a área.

Professor, ainda no ano de 2017, o Greenpeace divulgou uma série de fotos do que seria esse recife de corais da Amazônia. De acordo com o seu conhecimento técnico, o que de fato aparece naquelas fotografias? São os corais citados pelo Greenpeace ou outro tipo de formação?
Muitas das fotos divulgados pelo Greenpeace, na audiência pública em 2017, não são da região amazônica. Provavelmente, são fotos de outra região, até por conta das espécies que aparecem nas imagens. As fotos e vídeos apresentam alguns organismos que não característicos da foz do Rio Amazonas. Aí voltamos àquela questão de manipulação, que citei anteriormente: o uso indevido de uma foto de outra região ao lado de uma informação sobre a plataforma continental brasileira. Isso não é aceitável.

Jornalismo AEPET
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