Exploração de terras raras no Amazonas já nasce sob controle estrangeiro

Taboca Mineração, adquirida por empresa chinesa, e BBX do Brasil, subsidiária de empresa australiana, saem à frente na exploração de minerais raros no Estado

Publicado em 19/03/2026
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Em fase de estudos internos ou licenciamento, a exploração de terras raras no Amazonas já nasce sob controle estrangeiro. A empresa BBX do Brasil, subsidiária da australiana BBX, lidera um projeto mineral que avança em Apuí, no sul do estado. Já a mineradora Taboca, em Presidente Figueiredo, região metropolitana de Manaus, foi vendida em 2024 para a chinesa CNMC e possui estudos iniciais voltados à exploração de terras raras na região.

A BBX está em processo de licenciamento para a atividade por meio do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam). A estimativa é que a exploração inicie em 2027. A Taboca, que já atua na produção de estanho e ligas de Nióbio e Tântalo, tem estudos internos que apontam a ocorrência de terras raras na Mina de Pitinga. Uma nota técnica do governo estadual coloca o Amazonas como o segundo estado com mais reservas de terras raras identificadas, atrás apenas de Minas Gerais.

A presença de investimento estrangeiro no setor não é uma exclusividade do Amazonas. Diretor da Divisão de Minerais Críticos e Estratégicos da Agência Nacional de Mineração (ANM), Mariano Laio afirma que a maioria dos projetos no país segue a mesma linha.

“A gente já identificou mais de 60 projetos que estão em andamento, e muitos deles com empresas estrangeiras participando, aportando recursos. Nao posso dar um percentual exato agora, porque todo dia descobrimos projetos novos, mas posso dizer que a maioria é de capital estrangeiro”, disse Mariano Laio para A CRÍTICA.


Preocupação

 

Doutor em Geografia Humana, Marcos Castro avalia que a forte presença de empresas estrangeiras no setor mineral reproduz um comportamento que já se desenvolve há séculos.

 

“Uma das formas de obtenção de riqueza por parte de uma determinada nação é justamente se instalar em um país para extrair o que tem de riquezas. E sempre com aquele argumento da geração do emprego, da geração de impostos para o país, enquanto se extrai as riquezas dali”, diz.

 

Ele afirma que a China faz muitos negócios com outros países na área econômica, incluindo mineração. A tática também ajuda a explicar como a nação se tornou a segunda maior potência mundial, atrás dos Estados Unidos, que faz o mesmo. “O estabelecimento de empresas em outros países é um tônus geopolítico de dominação”, acrescenta.

 

Para o geógrafo, o cenário atual de maior interesse pelas terras raras coloca o Brasil e a Amazônia no centro da disputa mundial. “Temos uma briga entre China e Estados Unidos e o nosso país é um dos palcos disso”.

 

No caso do Amazonas, a BBX prevê exportação de terras raras para os norte-americanos, europeus e, talvez, chineses, como registrou A CRÍTICA em reportagem anterior. Já a Taboca, que tem um projeto menos avançado neste campo, não tem informações públicas sobre futuros mercados, mas é controlada por capital chinês.

 

 

Amazônia e cobiça

 

Para o doutor em Sociologia, Cleiton Maciel, o cenário global de disputa por terras raras coloca a Amazônia em risco. Ele lembra que o território desperta o interesse de outros países há décadas, mas afirma que a questão ganha outra dimensão em um momento em que os Estados Unidos buscam ampliar sua influência sobre a América Latina.


“A Amazônia, que sempre foi alvo de cobiça internacional, a começa a ser o objeto também de dominação por parte dos países. Então, talvez, no primeiro momento, a gente tenha a chegada dessas empresas para fazer essas explorações, mas se os arranjos institucionais do Brasil entrarem em choque, essa dimensão das empresas, em si, vão ceder à pressão nas nossas regiões, inclusive militar”, avalia.

 

Na visão dele, o Brasil precisaria de um adensamento maior do parque industrial. A ideia vai na linha do que também defende a economista doutora em Desenvolvimento Regional, Michele Aracaty. Ela lembra do caso da cidade de Coari, onde a Petrobras explora petróleo há mais de 30 anos, no Amazonas.

 

“O quanto Coari mudou depois desse tempo todo? A cidade ainda vive os mesmos dilemas de décadas atrás. E estamos falando do caso de uma empresa brasileira. A preocupação com isso é ainda maior quando se fala de capital estrangeiro”, alerta.

 

 

Para a especialista, o Brasil precisa pensar as consequências desse tipo de atividade, não olhar apenas para o curto prazo. “Se for para eles virem aqui somente para explorar e ficarem cada vez mais ricos e a nossa região não ser beneficiada com essa atividade, não está valendo”, acrescenta.

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Custos elevados

 

Diretor da Divisão de Minerais Críticos da ANM, Mariano Laio diz que o desenvolvimento do setor a partir de capital estrangeiro tem sido o caminho possível devido aos altos custos de investimento na atividade.

“Você precisa de investidores com perfil para aceitar risco. A gente tem estudos que mostram que de uma faixa de 500 a 1 mil requerimentos de pesquisa que pedem para avaliar uma área, apenas um vira realmente uma mina. Os outros são tiro na água. Ou seja, é investimento que se perde. Outra coisa é o tempo. Alguns demoram 15 anos para produzir. A gente não tem capital nacional suficiente para isso”, explica.

 

O secretário de Desenvolvimento Econômico Ciência, Tecnologia e Inovação (Sedecti-AM), Serafim Corrêa, afirma que o estado defende não somente a atuação da BBX e Taboca como espera que outras empresas venham para a região.

 

“O que esperamos é ter uma exploração mineral racional, ecologicamente correta, com a menor agressão possível ao meio ambiente a gente possa usufruir disso. Vamos usufruir através de empregos, de impostos e de oxigênio em toda a nossa economia”, diz.

 

Empregos e royalties

 

Líder do projeto da BBX no Amazonas, o diretor técnico Antônio de Castro diz que não existe empresa estrangeira atuando no Brasil em mineração. “Se você tiver interesse, precisa de uma empresa constituída no país. Os investidores, sim, podem ser de outro país”, afirma, se referindo ao caso da companhia onde atua.

 

Apesar da origem australiana do projeto da BBX, o executivo destaca que a exploração no Amazonas prevê a geração de pelo menos 200 empregos diretos e outros mil indiretos. Além disso, o recolhimento de impostos aos cofres públicos que poderá se converter na execução de políticas públicas para a população.

 

Testes realizados pela BBX em Apuí registraram a presença de elementos associados às terras raras

“O principal é a CFEM [Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais], que 60% vai para o município. Para se ter uma ideia, hoje Presidente Figueiredo recebe R$ 18 milhões por ano de royalties. Nós estimamos que Apuí vai receber em torno de R$ 12 milhões. Isso torna o município muito menos dependente de recursos federais ou emendas. Deixa a prefeitura mais segura, sem depender de pedido de esmola”, comenta.

 

 Em nota para a reportagem, a mineradora destacou que o fortalecimento de cadeias produtivas locais é um dos pilares estratégicos de sua atuação no Amazonas. “Os estudos relacionados ao potencial de minerais estratégicos no Estado, incluindo elementos associados às chamadas terras raras, vêm sendo acompanhados pela Mineração Taboca no contexto das atividades de pesquisa mineral já realizadas na região da Mina de Pitinga, localizada no município de Presidente Figueiredo”, afirma.

 

Segundo a companhia, seu novo ciclo de investimentos prevê a aplicação de US$ 100 milhões até 2028 em pesquisa mineral, modernização de plantas de beneficiamento e ampliação das fundições. A estratégia está alinhada ao objetivo de ampliar a competitividade da operação na Mina de Pitinga, ao mesmo tempo em que impulsiona o desenvolvimento regional.

 

“Atualmente, a operação da Mineração Taboca no Amazonas conta com cerca de 3 mil empregados diretos, sendo aproximadamente 80% provenientes das regiões Norte e Nordeste. A companhia também mantém um esforço contínuo de formação e capacitação de profissionais, buscando alinhar o crescimento industrial à inclusão produtiva e ao desenvolvimento socioeconômico da região”, ressalta.

 

A Taboca trabalha na produção de estanho e ligas metálicas de nióbio e tântalo, matérias-primas essenciais para a indústria eletrônica, transição energética e descarbonização. “Além disso, a ocorrências de terras raras na mina de Pitinga apresenta um potencial para o desenvolvimento tecnológico e econômico da região. Nossa estratégia vai além da extração; transformamos o potencial geológico brasileiro em vantagem tecnológica ao integrar Institutos de Ciência e Tecnologia locais que desenvolvem processos industriais desde o tratamento do mineral até novas aplicações para esses metais”, consta em nota.

Fonte(s) / Referência(s):

Waldick Júnior
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