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Paulo Gala

A Inglaterra chutou a escada?

O desenvolvimento econômico não acontece naturalmente pela exposição ao livre comércio.

Publicado em 07/01/2026
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Você sabia que a Inglaterra não virou potência mundial pregando livre mercado?

A narrativa dominante conta que os países ricos prosperaram graças às “instituições certas” e ao liberalismo econômico.

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Mas essa história esconde quatrocentos anos de protecionismo ferrenho, proibições comerciais e guerra econômica contra concorrentes europeus.

A Inglaterra construiu seu império industrial bloqueando exportações de matéria-prima, barrando importações de manufaturados e, literalmente, roubando mercados de cidades prósperas como Bruges, Ghent, Florença e Veneza.

Só depois de dominar a indústria têxtil mundial é que os ingleses passaram a pregar liberalismo para os outros.

Hoje vou mostrar como a Inglaterra realmente se industrializou—e por que essa história importa para entender o desenvolvimento econômico.

Vamos mergulhar!
A Inglaterra não nasceu liberal: nasceu protecionista.

Entre os séculos XV e XIX, a Inglaterra praticou uma das políticas protecionistas mais agressivas da história econômica.

Os reis Henrique VII (1485-1509) e Elizabeth I (1558-1603) implementaram medidas drásticas contra a próspera indústria de tecidos nos Países Baixos, especialmente em Bruges e Ghent (na atual Bélgica).

A estratégia era clara: proibir a exportação de lã bruta inglesa para o continente e bloquear fortemente a entrada de tecidos importados. O objetivo? Forçar o desenvolvimento das tecelagens inglesas.

Sem acesso à matéria-prima inglesa, as manufaturas europeias perderam competitividade. Sem concorrência de tecidos importados, as fábricas inglesas puderam crescer.

Robert Walpole, primeiro-ministro durante o reinado de George I (1714-1727), aprofundou esse mercantilismo ferrenho.

Em 1695, o comerciante John Cary publicou em Bristol um relato impressionante sobre as práticas protecionistas e nacionalistas inglesas dos séculos XVI e XVII. Cary descreveu os “ataques comerciais” a Portugal, França e Itália para dominar o comércio de têxteis.

E foi além: documentou como Londres impôs uma desindustrialização forçada à Irlanda para eliminar a concorrência na manufatura de tecidos.
O plano era simples: importar barato, exportar caro, roubar mercados.

Para John Cary, o caminho para a expansão inglesa estava bem definido: continuar importando matérias-primas baratas e exportando manufaturados—roubando os mercados atendidos por Amsterdã, Bruges, Ghent, Florença e Veneza.

Essa estratégia levou quatrocentos anos para dar resultado completo.

No início da década de 1800, a Inglaterra finalmente estava em posição confortável para dominar o mundo com seu “liberalismo”.

Mas não se engane: esse liberalismo só veio depois que a concorrência europeia havia sido massacrada por séculos de protecionismo inglês. A indústria têxtil—base da Revolução Industrial—só conseguiu suplantar a potência dos Países Baixos através dessa parafernália de medidas protecionistas.

Adam Smith publicou A Riqueza das Nações em 1776, mas ignorou completamente a própria história da Inglaterra.

Smith recomendou aos Estados Unidos que aproveitassem sua vantagem comparativa natural na agricultura, abandonando práticas protecionistas para desenvolver indústria.

Os americanos perceberam a jogada e fizeram exatamente o contrário.
Os Estados Unidos copiaram o truque inglês—e deu certo.

Alexander Hamilton, primeiro secretário do Tesouro americano (1789-1795), foi um dos principais formuladores do protecionismo que estimulou a indústria manufatureira dos Estados Unidos.

Seu famoso Relatório sobre Manufaturas (1791) defendia tarifas e subsídios para proteger a “indústria infante”.

Friedrich List, economista alemão que viveu anos nos Estados Unidos estudando essas práticas, depois formalizou essas ideias em Sistema Nacional de Economia Política (1841).

O projeto dos estados do Norte contrariava frontalmente as recomendações do liberalismo inglês—que, segundo muitos americanos da época, era “produzido para exportação, não para consumo interno”.

A Guerra Civil Americana (1860-1865) foi, em parte, um embate entre dois modelos econômicos: o protecionismo da União (representando as indústrias do Norte) versus o liberalismo da Confederação (representando os interesses agrícolas escravocratas do Sul).

Abraham Lincoln foi eleito com o voto decisivo dos estados protecionistas—Nova Jersey e Pensilvânia. A vitória do Norte transformou os Estados Unidos num dos praticantes mais assíduos da proteção à indústria infante até a Primeira Guerra Mundial.

Thomas Jefferson chegou a tentar proibir a edição americana dos Princípios de Economia Política de David Ricardo, considerando a obra “excessivamente liberal”.

Os americanos aprenderam a lição: use protecionismo até sua indústria ficar competitiva, depois pregue livre mercado para os outros.
“Chutar a escada”: a estratégia dos países ricos.

O economista alemão Friedrich List criou a expressão “chutar a escada” para descrever essa dinâmica.

Depois de alcançar elevado grau de desenvolvimento, países que promoveram forte protecionismo passam a defender posturas liberais—já que suas empresas agora estão em condições de competir no mercado mundial. “Chutam a escada” para evitar que outros subam.

O fim das Leis dos Cereais na Inglaterra é exemplo clássico: ao estimular a produção de cereais no continente, os ingleses tentavam evitar o desenvolvimento das indústrias europeias, especialmente francesa e alemã. Praticavam o chamado “imperialismo de livre comércio”.

A lógica é implacável: países desenvolvidos dificultam—e, no limite, impedem—o desenvolvimento de países pobres que apresentam potencial para competir.

As empresas dos países ricos têm vantagens gigantescas sobre concorrentes de países pobres: domínio de mercados, propriedade de tecnologias, escala de produção. Por isso mesmo esses países são ricos, enquanto outros são pobres.

A China entendeu essa dinâmica perfeitamente e fez durante 30 anos exatamente o que Inglaterra, Estados Unidos, Alemanha e Japão fizeram: proteção alfandegária, subsídios, câmbio desvalorizado, desrespeito a patentes, transferência tecnológica forçada.

Quando EUA, Japão e Alemanha finalmente perceberam o truque, começaram a tentar proteger suas empresas com tarifas e fundos estatais.

Foi o mesmo truque que eles usaram para derrubar a Inglaterra no século XIX—só que agora estavam do outro lado.
A lição que Adam Smith “esqueceu” de contar.

O desenvolvimento econômico não acontece naturalmente pela exposição ao livre comércio.

Países que enriqueceram usaram pesadamente o Estado para alterar sua estrutura produtiva—protegendo indústrias nascentes, subsidiando exportações, bloqueando importações, roubando tecnologias, forçando transferências de conhecimento. Só depois de dominar setores com retornos crescentes de escala é que passaram a defender o livre mercado para os outros.

A história da Inglaterra desmonta a narrativa de que “boas instituições” e “livre mercado” são suficientes para o desenvolvimento. As instituições inglesas avançaram depois que o Estado alterou radicalmente a estrutura produtiva através de protecionismo.

O desenvolvimento manufatureiro veio primeiro; as instituições liberais, muito depois—quando já não eram mais ameaça aos interesses ingleses.

Para países em desenvolvimento, a lição é clara: não existe atalho.

O que você produz importa. Como você produz importa. E você não consegue subir a escada da sofisticação produtiva apenas “liberalizando” sua economia—porque os países ricos já chutaram a escada.

P.S. — “Ok, mas essa é história antiga. O mundo mudou, globalização, cadeias de valor... não dá mais para fazer isso.”

Será? A China fez exatamente isso entre 1980-2010 e virou superpotência. Os EUA de Trump e Biden estão ressuscitando tarifas, subsídios e políticas industriais para competir com a China — é o tema das últimas aulas do meu curso “Ascensão e Queda do Império Americano” (aulas 26-28 sobre o Desafio Chinês e a Decadência Americana). Você vai estudar como os EUA criaram o Vale do Silício via contratos militares, como desenvolveram computadores e a bomba atômica via Estado Empresarial durante a 2ª Guerra, e como hoje lutam para não perder a hegemonia global. Protecionismo estratégico nunca saiu de moda — só mudou de nome.

Paulo Gala é Graduado em Economia pela FEA-USP | Mestre e Doutor em Economia pela Fundação Getúlio Vargas em São Paulo | Foi pesquisador visitante nas Universidades de Cambridge UK e Columbia NY | Autor com +10,000 cópias de livros vendidas | Geriu carteiras de +R$ 3,000,000,000 | Professor na FGV/SP há 20 anos.

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