
O futuro da energia
O futuro imaginário já está acontecendo e precisamos entender os seus sinais.
Nas próximas duas décadas, o mundo sofrerá transformações mais profundas do que as ocorridas ao longo dos últimos 100 anos. A disrupção será a regra e as taxas de inovação serão cada vez mais aceleradas. Nenhuma área de atividade, seja humana, empresarial ou tecnológica, estará a salvo das mudanças que virão e as mutações atingirão a maioria dos processos produtivos e modelos de negócio atuais.
Receba os destaques do dia por e-mail
Exemplos de disrupção por inovação tecnológica já ocorreram antes. Em 1998, a Kodak tinha 170 mil funcionários e vendia 85% do papel fotográfico utilizado no mundo. Em apenas 3 anos, o seu modelo de negócio foi extinto e a empresa desapareceu. O mesmo acontecerá com muitos negócios e indústrias nos próximos anos e a maioria das pessoas nem vai se aperceber disso. As mudanças serão causadas pelo surgimento de novas tecnologias e pelo desenvolvimento generalizado das aplicações de Inteligência Artificial.
O futuro nos reserva surpresas além da imaginação. Novos “softwares” vão impactar a maioria dos negócios e as futuras transformações serão muito mais rápidas do que as ocorridas no passado. Algumas delas já estão acontecendo e sinalizam o que teremos pela frente. O Uber é apenas uma ferramenta de “software” e não possui um carro sequer, no entanto, constitui, hoje, a maior empresa de táxis do mundo. A Airbnb é o maior grupo hoteleiro do planeta, sem deter a propriedade de uma única unidade de hospedagem.
Muitos analistas acreditam que o setor de energia já ingressou em um processo acelerado de inovação disruptiva, que promoverá profundas mudanças na tecnologia, nos processos e nos modelos de negócios futuros. Para a indústria do petróleo, os vetores dessa transformação têm sido a geração distribuída de eletricidade, a partir de fontes renováveis locais, e a introdução dos veículos elétricos nos mercados de transporte.
Pressionadas pela necessidade de enfrentamento das mudanças climáticas e por regras contra a poluição cada vez mais rigorosas, as grandes montadoras mundiais estão investindo para que os seus modelos de veículos elétricos estejam à disposição dos consumidores no menor prazo possível. Em pouco tempo, as empresas de tecnologia (Tesla, Apple, Google) estarão construindo computadores sobre rodas e os carros elétricos tenderão a dominar o mercado na próxima década. A eletricidade vai se tornar incrivelmente barata e limpa. Os custos, em escala industrial, da energia solar e de outras fontes “limpas” já caíram para níveis que as tornam as fontes de produção de eletricidade mais competitivasas em muitos locais. No ano passado, o mundo instalou mais geração de eletricidade com energia solar do que à base de combustíveis fósseis.
Dados da Agência Internacional de Energia e de um estudo da BloombegNEF mostram que os investimentos globais em transição energética atingiram US2,3 trilhões em 2025, quase o dobro dos gastos com a energia de origem fóssil. Os investimentos na geração de eletricidade a partir de fontes de energia renováveis foram de US$770 bilhões. No “ranking” global, o Brasil aparece como o nono maior mercado de investimentos em transição energética, com US$ 38 bilhões aplicados em 2025, principalmente em fontes renováveis. Segundo o estudo da BloombergNEF, o investimento médio anual global pode alcançar US$ 2,9 trilhões entre 2026 e 2030, indicando que o volume atual deve crescer ainda mais para atender às metas climáticas internacionais.
Fatores geopolíticos podem, também, constituir um estímulo à produção de energia a partir de fontes de origem não fóssil. O recente ataque ao Irã, promovido por Estados Unidos e Israel, resultou na interdição da navegação pelo Estreito de Ormuz e paralisou o escoamento do petróleo produzido na região do Golfo Pérsico, elevando drasticamente os preços do produto no mercado internacional e prejudicando a economia global. A possibilidade de repetição de eventos dessa natureza induz a busca de soluções energéticas alternativas, mais seguras e sustentáveis. Assim sendo, os países importadores de petróleo e gás natural poderão, por motivos estratégicos e de segurança energética, passar a investir mais na redução da sua dependência da importação desses produtos.
O Plano de Negócios 2026-2030 da Petrobras prevê o investimento de US$7,9 bilhões em Diversificação Rentável, que compreende a produção de bioprodutos e o aproveitamento de fontes de energia de baixo carbono. Este valor corresponde a apenas 7% do total de investimentos previstos para o período, de US$109 bilhões. Parece pouco, quando se compara com o que vem sendo feito no resto do mundo, mas, é um avanço significativo na direção do desenvolvimento futuo do setor energético brasileiro. Tudo indca que a nossa maior e mais importante empresa decidiu, estrategicamente, destinar recursos crescentes para a pesquisa de processos disruptivos do setor de energia e para projetos rentáveis que utilizem as tecnologias já disponíveis.
A única certeza que temos sobre o futuro é que ele será muito diferente. Todas as atividades que conhecemos serão atingidas e a indústria do petróleo não será exceção. As empresas mais preocupadas com o futuro passarão, como a Petrobras, a incluir em em suas orientações estratégicas cenários alternativos ao “business as usual”, considerando, em todo ou em parte, as tendências aqui descritas. Este futuro imaginário já está acontecendo e precisamos entender os seus sinais.
Eugenio Miguel Mancini Scheleder é engenheiro e trabalhou na Petrobras de 1963 a 2015. Foi Gerente de Empreendimentos, Gerente Geral de Engenharia e Assistente de Diretor. No Governo Federal, de 1991 a 2005, ocupou cargos de direção nos ministérios de Minas e Energia e do Planejamento. Foi Secretário Nacional de Energia Adjunto, Presidente da Comissão Nacional de Gás Natural, Diretor de PROCEL e CONPET, Diretor de Gestão, Diretor de Programas Estratégicos e Assessor Econômico do Ministro do Planejamento. Foi, também, Vice-Presidente De Renewable Energy Initiative in Americas - REIA, com sede em Washingto – EUA.
Gostou do conteúdo?
Clique aqui para receber matérias e artigos da AEPET em primeira mão pelo Telegram.