aepet_autores_felipe_coutinho
Felipe Coutinho
Engenheiro químico e presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobrás (AEPET)

O alerta da Raízen e o caminho perigoso da Petrobrás nas renováveis

Publicado em 11/03/2026
Compartilhe:

Felipe Coutinho*

 

O pedido de recuperação extrajudicial da Raízen ecoa como um sinal de alerta que não pode ser ignorado pelo Conselho e Diretoria da Petrobrás¹. A gigante do setor sucroenergético, sempre aclamada pela mídia como símbolo de eficiência e inovação, encontra-se asfixiada por uma combinação letal: endividamento excessivo, choques de mercado e, principalmente, investimentos bilionários em renováveis que não se pagaram. O caso da Raízen expõe uma verdade inconveniente para os entusiastas da transição energética a qualquer custo: negócios insustentáveis não perduram, mesmo quando camuflados de verde².

Na Raízen, o nó se apertou com os pesados aportes em etanol de segunda geração e outras fontes renováveis que prometiam revolucionar o setor, mas entregaram prejuízos². Na Petrobrás, o roteiro ameaça se repetir em escala monumental. Enquanto a empresa modera investimentos em seu core business, apressa anúncios de novos planos de transição, o Plano de Negócios 2026-2030 reserva cifras bilionárias para exatamente os mesmos tipos de armadilhas nas quais a Raízen caiu³.

A direção da Petrobrás insiste em empurrar a empresa para um terreno movediço. Estão previstos US$ 2,2 bilhões para etanol³. Não satisfeito, o plano prevê a construção de plantas dedicadas ao processamento de óleo de soja e sebo bovino para produzir diesel renovável e BioQAV, como o ambicioso projeto da Refinaria Presidente Bernardes (RPBC), em Cubatão, que prevê processar 950 mil toneladas por ano dessas matérias-primas⁴. A isto somam-se US$ 1,5 bilhão em biorrefino e US$ 1,1 bilhão para biodiesel e biometano, além de US$ 400 milhões em hidrogênio verde e US$ 900 milhões em CCUS (Captura e Armazenamento de Carbono) ³.

São aproximadamente US$ 6 bilhões (mais de R$ 30 bilhões) destinados a projetos que carregam as mesmas características que levaram a Raízen à crise. Quando afirmei, em artigos anteriores, que "processar óleo de soja nas refinarias é uma péssima decisão disfarçada de verde" e que "eólica e solar não são renováveis nem confiáveis", o fazia baseado em princípios básicos da termodinâmica e da engenharia financeira⁵ ⁶. O desastre da Raízen agora oferece a prova empírica que faltava.

Há, felizmente, sinais de que nem todos os gestores estão cegos pela ideologia. A própria Petrobrás reconheceu, em seu plano mais recente, que há um "excesso de oferta de energia renovável no mercado" e reduziu os aportes em eólica e solar de US$ 4,3 bilhões para US$ 1,78 bilhão³. É um recuo tático importante, mas insuficiente. O problema persiste porque a empresa, ao diversificar seus negócios, tem demonstrado insuficiência de cautela e visão crítica na estruturação dessas novas frentes. Não se trata de rejeitar a diversificação em renováveis, mas sim de exigir que ela seja feita com modelos de negócios verticalmente integrados, resilientes ao elevado custo de produção quando comparado aos combustíveis fósseis e preparados para as oscilações naturais do mercado. O que vemos hoje é um desvio de foco das moléculas de petróleo — onde a Petrobras detém vantagem competitiva incomparável — para moléculas vegetais e negócios de geração elétrica intermitente sem a devida solidez econômico-financeira.

Receba os destaques do dia por e-mail

Cadastre-se no AEPET Direto para receber os principais conteúdos publicados em nosso site.
Ao clicar em “Cadastrar” você aceita receber nossos e-mails e concorda com a nossa política de privacidade.

O hidrogênio verde por eletrólise, que a Petrobrás quer financiar, é uma aberração termodinâmica e financeira. Produzir um vetor energético de alto custo a partir de fontes intermitentes (eólica e solar) para tentar substituir combustíveis fósseis consolidados é queimar dinheiro em nome de uma narrativa. O CCUS, embora útil em aplicações específicas, torna-se um poço sem fundo se não estiver casado com a eficiência operacional do pré-sal, que a empresa já domina⁷.

O destino da Raízen deveria servir de lição: empresas não quebram por investir no futuro, mas sim por investir no futuro errado, na hora errada, com o dinheiro que não têm. A Petrobrás tem dinheiro, mas deve-o ao sucesso do pré-sal e à competência do seu corpo técnico — engenheiros, geólogos, geofísicos, técnicos, administradores e tantos outros profissionais que, com excelência, construíram a maior empresa do país. Gastar dezenas de bilhões para transformar óleo de soja em combustível de aviação ou apostar em etanol de segunda geração via participações minoritárias em players já endividados do setor não é estratégia; é voluntarismo que desconsidera o interesse público. Os recursos da Petrobrás — empresa de capital misto, mas com controle estatal — são patrimônio da sociedade brasileira. Deve ser aplicado onde gere valor sustentável e atenda ao interesse público de forma consistente, não movido por modismos ou pressões ideológicas sem lastro técnico-econômico.

A Petrobrás não é uma startup de energia verde. É uma gigante de petróleo e gás que sustenta o país. Seguir o caminho da Raízen, ignorando as leis da física e da economia, não é apenas um erro de gestão. É uma temeridade com o patrimônio da União e com a segurança energética do Brasil. Que a presidência do Brasil, os conselheiros, diretores e acionistas acordem para esse risco antes que o alerta da Raízen se transforme em um atestado de óbito para a saúde financeira da nossa maior estatal.

 

* Felipe Coutinho é engenheiro químico e presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobrás (AEPET)

Março de 2026

https://aepet.org.br/

https://felipecoutinho21.wordpress.com/

 

Referências

  1. RAÍZEN. Avisos, Fatos Relevantes e Comunicados. Relações com Investidores Raízen.
  2. BERGAMO, M. Entenda a crise da Raízen, que pediu recuperação extrajudicial. Folha de S. Paulo, São Paulo, 29 maio 2024.
  3. PETROBRAS. Petrobras aprova Plano de Negócios 2026-2030. Agência Petrobras, nov. 2024.
  4. PETROBRAS. Petrobras avança na contratação para construir primeira planta de BioQAV e diesel renovável. Agência Petrobras, 19 ago. 2025.
  5. COUTINHO, F. Processar óleo de soja nas refinarias da Petrobrás é uma péssima decisão disfarçada de verde. Brasil Energia, 6 set. 2024.
  6. COUTINHO, F.; COSTA, M. Eólica e solar fotovoltaica não são renováveis, nem confiáveis. AEPET, 2024.
  7. AGÊNCIA NACIONAL DO PETRÓLEO, GÁS NATURAL E BIOCOMBUSTÍVEIS (ANP). Boletim Mensal da Produção de Petróleo e Gás Natural. gov.br.
guest
0 Comentários
Mais votado
Mais recente Mais antigo
Feedbacks Inline
Ver todos os comentários

Gostou do conteúdo?

Clique aqui para receber matérias e artigos da AEPET em primeira mão pelo Telegram.

Mais artigos de Felipe Coutinho

Receba os destaques do dia por e-mail

Cadastre-se no AEPET Direto para receber os principais conteúdos publicados em nosso site.

Ao clicar em “Cadastrar” você aceita receber nossos e-mails e concorda com a nossa política de privacidade.

0
Gostaríamos de saber a sua opinião... Comente!x