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Felipe Coutinho
Engenheiro químico e presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobrás (AEPET)

Petrobrás 2025: menos dividendos, mais investimentos — mas a conta ainda não fecha

Publicado em 06/03/2026
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Felipe Coutinho*

 

A redução dos investimentos foi o principal fator que permitiu às direções da Petrobrás, entre 2021 e 2024, pagarem dividendos altos e insustentáveis. [1] [2] [3] [4]

Em 2025, a direção da Petrobrás retomou investimentos, ainda que de forma insuficiente. Assim como moderou a distribuição dos dividendos, embora histórica e relativamente altos.

Aumento dos investimentos e moderação no pagamento de dividendos

A Tabela 1 apresenta, em bilhões de dólares estadunidenses (US$), o histórico dos Dividendos Pagos e o Investimento Líquido, sendo este a soma das aquisições de ativos imobilizados e intangíveis, reduções (adições) em investimentos e investimentos em títulos e valores mobiliários, descontado do recebimento pela venda de ativos (desinvestimentos). [5]

Tabela 1: Dividendos Pagos & Investimento Líquido da Petrobrás, em Bilhões US$

Ano Dividendos Pagos Investimento Líquido* Dividendos Pagos / Investimento Líquido*
2005 2,20 9,89 22,24%
2006 3,16 15,51 20,37%
2007 4,22 23,81 17,72%
2008 2,66 22,84 11,65%
2009 8,87 40,62 21,84%
2010 5,65 48,25 11,71%
2011 5,68 37,38 15,20%
2012 3,03 39,03 7,76%
2013 2,47 38,41 6,43%
2014 3,29 27,59 11,92%
2015 0,00 17,69 0,00%
2016 0,07 13,04 0,54%
2017 0,16 10,26 1,56%
2018 0,79 6,18 12,78%
2019 1,99 13,93 14,29%
2020 1,28 4,82 26,56%
2021 13,03 1,57 829,94%
2022 37,30 4,79 778,71%
2023 20,28 8,72 232,63%
2024 16,26 12,21 133,19%
2025 8,26 19,11 43,21%

 

Em 2021 e 2022 a razão média entre os dividendos pagos e o investimento líquido foi de 804%, nos resultados consolidados de 2023, 2024 e 2025 foi de 232,63% e 133,19% e 43,21%, respectivamente.

Entre 2005 e 2020, a razão média entre dividendos e investimentos foi de 12,7%. Em 2025, essa relação foi de 43,2%, ou seja, 3,4 vezes superior à média histórica.

Conclui-se que entre 2023 e 2025 houve redução da distribuição dos dividendos em relação ao investimento, no entanto os dividendos ainda seguem relativamente altos se comparados com período histórico mais amplo de 2005 a 2020.

Os lucros e dividendos distribuídos hoje, são resultados dos investimentos realizados no passado. É evidente que elevar a distribuição dos dividendos, em detrimento dos investimentos, comprometerá o resultado futuro.

Os números evidenciam que a distribuição de dividendos tem sido desproporcional em relação aos investimentos. Os resultados históricos demonstram que tais políticas não são sustentáveis. Apesar de ainda alta e historicamente desproporcional, a tendência da redução relativa dos pagamentos de dividendos em relação aos investimentos, desde 2021 até 2025, é outra evidência da sua insustentabilidade.

Além de analisar os resultados históricos da Petrobrás, é necessário comparar suas políticas de investimento e distribuição de dividendos com as de outras grandes petrolíferas integradas.

A Tabela 2 apresenta a comparação dos resultados consolidados de 2025. [5] [6]

Tabela 2: Resultados consolidados da Petrobrás e grandes petrolíferas de 2025, em Bilhões US$

Companhia Receita Lucro Líquido Dividendos Pagos Investimento Líquido* Dividendos Pagos / Investimento Líquido*
Exxon Mobil 332,24 28,84 17,23 25,93 66%
Shell 273,73 17,84 8,47 18,53 46%
Total 182,34 13,13 8,12 17,34 47%
BP 192,55 0,06 5,06 10,74 47%
Chevron 189,03 12,30 12,75 16,69 76%
Petrobrás 90,42 20,01 8,26 19,11 43%

 

Em 2025, a Petrobrás, apesar de ter a menor receita entre as seis empresas, pagou o quarto maior montante em dividendos. Por outro lado, foi a petrolífera que realizou o segundo maior investimento líquido, sendo de 107% em relação à média das demais.

A menor relação entre os dividendos pagos e os investimentos líquidos demonstram como as políticas da alta direção da Petrobrás em 2025 reduziram a discrepância, observada desde 2021, em relação a gestão das grandes petrolíferas mundiais.

Ao analisar o histórico da Petrobrás e os resultados de grandes petrolíferas internacionais é evidente que os dividendos pagos pela alta direção da estatal entre 2021 e 2024 foram realizados em detrimento dos investimentos líquidos e, por isso — entre outros fatores — foram insustentáveis.

O aumento dos investimentos em relação a distribuição de dividendos observada em 2025, apesar de limitado, revela a insustentabilidade das políticas adotadas de 2021 a 2024.

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Política de remuneração dos acionistas

A direção da Petrobrás anunciou a revisão da sua política de remuneração dos acionistas. No entanto, a maior parte da política anterior foi mantida, como o pagamento de dividendos trimestrais e proporcionais ao fluxo de caixa livre.

O fluxo de caixa livre é o resultado da geração de caixa descontados os investimentos. A nova política incluiu, ainda, o desconto referente à aquisição de participações societárias. A política prevê dividendos de 45% do fluxo de caixa livre a cada trimestre, redução modesta na comparação com os 60% da política anterior. Ainda foi incluída a prática de recompra e cancelamento de ações, como mais uma alternativa para valorizar o capital dos acionistas. [7]

Quanto menor o investimento, maiores o fluxo de caixa livre e a distribuição de dividendos, além de mais recursos disponíveis para a recompra e cancelamento de ações, com valorização potencial do capital dos acionistas no curto prazo.

O investimento líquido em 2024 foi de US$ 19,1 bilhões, 13% menor se comparado à média histórica dos investimentos da Petrobrás, entre 1965 e 2021, de cerca de US$ 22 bilhões por ano, e 64% menor se comparado com o investimento médio anual, entre 2009 e 2014, de US$ 53 bilhões, em valores atualizados.

Não à toa, a política de remuneração dos acionistas foi bem recebida por agentes do sistema financeiro. [8]

No artigo “Insustentáveis Dividendos Pagos pela Atual Direção da Petrobrás” demonstro que os investimentos realizados em 2021 e 2022 foram insuficientes para repor as reservas, manter a produção e agregar valor ao petróleo da Petrobrás. Aqui verifico que a situação começa a mudar, com os resultados de 2025.

Conclusão

O objetivo essencial das sociedades de economia mista, como a Petrobrás, não é a obtenção de lucro, muito menos aquele lucro não recorrente e de curto prazo, mas a implementação de políticas públicas. O que legitima a ação do Estado como empresário (a iniciativa econômica pública do artigo 173 da Constituição de 1988) é a produção de bens e serviços que não podem ser obtidos de forma eficiente e justa no regime da exploração econômica privada. Não há qualquer sentido em o Estado procurar receitas por meio da exploração direta da atividade econômica. A esfera de atuação das sociedades de economia mista é a dos objetivos da política econômica, de estruturação de finalidades maiores, cuja instituição e funcionamento ultrapassam a racionalidade de um único ator individual (como a própria sociedade ou seus acionistas). A empresa estatal em geral, e a sociedade de economia mista, em particular, não têm apenas finalidades microeconômicas, ou seja, estritamente “empresariais”, mas têm essencialmente objetivos macroeconômicos a atingir, como instrumento da atuação econômica do Estado. [9]

Dos resultados históricos e comparativos, da Petrobrás e de grandes petrolíferas, permitem-se concluir que a redução dos investimentos, a níveis insuficientes para manter reservas e produção de petróleo, as vendas de ativos rentáveis, estratégicos e resilientes à queda do preço do petróleo e seus preços conjunturalmente elevados, possibilitaram pagamentos de dividendos altos e insustentáveis pela direção da Petrobrás entre 2021 e 2024. Recebo com esperança e cautela os melhores resultados de 2025.

 

* Felipe Coutinho é engenheiro químico e presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobrás (AEPET)

Março de 2025

https://aepet.org.br/

https://felipecoutinho21.wordpress.com/

Referências

[1] F. Coutinho, “Insustentáveis Dividendos Pagos pela Atual Direção da Petrobrás,” 2022.
[2] F. Coutinho, “Petrobrás: Direção Parasitária Corta Investimentos para Pagar Dividendos Altos e Insustentáveis,” 2023.
[3] F. Coutinho, “Direção da Petrobrás mantém investimentos baixos e dividendos insustentavelmente altos em 2023,” 2024.
[4] F. Coutinho, “Petrobrás 2024: direção mantém investimento baixo e dividendo alto,” 2025.
[5] Economatica e Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
[6] Petrobras, “Demonstrações Financeiras Intermediárias Consolidadas”.
[7] Petrobras, “Petrobras sobre Política de Remuneração dos Acionistas,” 2023.
[8] L. Rizério, “Petrobras (PETR4): ações têm salto de até 5,3% com alívio sobre nova política de dividendos; riscos ficaram para trás?,” 2023.
[9] F. Coutinho e G. Bercovici, “Petrobrás é a maior vítima de fake news da história do Brasil,” 2021.
[10] F. Coutinho, “Petrobrás sob Lula: Nada de Novo Depois do 1º Trimestre de 2023,” 2023.
[11] Reuters, “Investimento da Petrobras (PETR4) em novo plano deve ser semelhante ao atual, diz CEO,” 2023.
[12] F. Coutinho, “Prates mantém investimento baixo e dividendo alto na Petrobrás (2T23),” 2023.
[13] F. Coutinho, “Direção da Petrobrás segue míope, investe pouco e paga muito dividendo, revelam os resultados do 3T23,” 2023.
[14] F. Coutinho, “Política de investimentos baixos e dividendos altos é mantida pela direção da Petrobrás no 1º semestre de 2024,” 2024.

 

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