A desdolarização é possível e inevitável

Desdolarização não trata de um mundo sem o dólar, mas de perda do domínio como moeda única de referência nas transações comerciais.

Publicado em 27/08/2026
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A desdolarização começa pelas margens do sistema, não pelo centro. Cada vez mais, há acordos bilaterais, swaps cambiais, financiamento em moedas locais, sistemas digitais de pagamento e liquidação direta. A observação foi feita por Evandro Menezes de Carvalho, professor da Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Um dos maiores especialistas brasileiros em China, Menezes explica que ocorre um processo de desdolarização relativa: apesar de ter perdido participação, o dólar ainda representa 57,1% das reservas cambiais mundiais, enquanto a moeda chinesa, o renminbi, tem apenas 2%.

“Quando observamos os fluxos comerciais, a transformação é mais visível. Segundo dados do Banco Central Europeu, o renminbi já respondia, em março de 2026, por aproximadamente 8% do financiamento do comércio internacional via Swift.”

Evandro Menezes de Carvalho, professor, especialista em China

Evandro Menezes de Carvalho (foto divulgação)

Eu diria que estamos entrando na segunda fase da desdolarização”, acrescenta o professor. “A primeira fase consistiu principalmente em declarações políticas e acordos bilaterais. Já a segunda, que estamos vivendo agora, é a construção da infraestrutura.”

A desdolarização é possível?

Entendo que o processo de desdolarização da economia mundial é possível e inevitável. Mas é preciso advertir que a expressão não é muito precisa, pois pode sugerir um mundo “sem o dólar”. Não se trata disto, mas de perda do domínio do dólar como moeda única de referência nas transações comerciais.

Além disso, também não devemos incorrer na conclusão apressada de que o renminbi [moeda chinesa] irá ocupar o lugar que hoje pertence à moeda norte-americana. Os números mostram por que devemos ser cautelosos. No primeiro trimestre de 2026, aproximadamente 57,1% das reservas cambiais mundiais ainda estavam denominadas em dólares, enquanto o renminbi representava apenas cerca de 2%. Portanto, a superioridade do dólar permanece um fato inegável.

O que está ocorrendo, contudo, é um processo de desdolarização relativa: países procuram aumentar o uso de suas próprias moedas no comércio, diversificar reservas, criar novos mecanismos de pagamento e reduzir a dependência de uma única infraestrutura financeira.

Quando observamos os fluxos comerciais, a transformação é mais visível. Segundo dados do Banco Central Europeu, o renminbi já respondia, em março de 2026, por aproximadamente 8% do financiamento do comércio internacional via Swift, enquanto o dólar respondia por cerca de 81%. Antes da pandemia, a participação chinesa era muito menor.

É justamente aqui que está a mudança estrutural. A desdolarização começa pelas margens do sistema, não pelo centro. Cada vez mais, há acordos bilaterais, swaps cambiais, financiamento em moedas locais, sistemas digitais de pagamento e liquidação direta. À medida que essas redes se conectam, diminui a necessidade de utilizar o dólar como intermediário. O que estamos vendo não é o fim do dólar, mas o fim progressivo do monopólio monetário do dólar.

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Do ponto de vista geopolítico, quais são os desafios e os possíveis ganhos para países como o Brasil?

Para o Brasil, o principal ganho é autonomia estratégica. Hoje, dois países podem realizar uma transação que não envolve economicamente os Estados Unidos e, ainda assim, depender do dólar e da infraestrutura financeira ligada ao sistema norte-americano. Isso significa custos cambiais, custos de intermediação e, sobretudo, exposição a decisões políticas e monetárias tomadas em Washington.

Quando o Federal Reserve eleva fortemente os juros, por exemplo, os efeitos são transmitidos para praticamente toda a economia mundial. Da mesma maneira, a utilização de sanções financeiras demonstrou que a infraestrutura monetária internacional também pode se transformar em um instrumento de poder geopolítico.

Para países como o Brasil, portanto, diversificar não significa necessariamente ser “contra os Estados Unidos”. Significa não depender exclusivamente dos Estados Unidos.

Naturalmente, o Brasil deve preservar sua relação econômica com os Estados Unidos e continuar utilizando o dólar sempre que isso for eficiente. Mas deve, simultaneamente, ampliar suas possibilidades de operar em reais, renminbis, euros, e outras moedas.

Trata-se de aplicar à política monetária internacional o mesmo princípio que o Brasil historicamente busca aplicar à política externa: a diversificação de parceiros como instrumento de autonomia.

Há ainda uma questão particularmente importante: a China é o principal parceiro comercial do Brasil. Se uma grande parcela desse comércio puder ser progressivamente financiada e liquidada diretamente em reais e renminbis, não faz necessariamente sentido que toda operação passe pelo dólar.

A mídia chinesa tem destacado precisamente essa dimensão. Em julho de 2026, o People’s Daily [jornal do Partido Comunista da China] chamou atenção para a preparação da primeira emissão soberana brasileira de panda bonds, títulos denominados em renminbi no mercado chinês, interpretando-a como um passo importante na cooperação financeira bilateral e na diversificação monetária.

O governo brasileiro prepara uma emissão de até 5 bilhões de yuans, que poderá ser a maior emissão inaugural desse tipo realizada por um governo estrangeiro na China. O objetivo também é abrir caminho para que empresas brasileiras tenham acesso a financiamento em renminbi. Isto é desdolarização na prática, muito mais do que discursos sobre a criação de uma nova moeda.

Mas há riscos. E vários. Primeiramente, moedas internacionais precisam de algo que não se cria por decreto: confiança, liquidez, mercados financeiros consolidados e ativos considerados seguros.

A força do dólar não decorre apenas do poder político dos Estados Unidos. Ela está associada à dimensão e à liquidez dos mercados financeiros norte-americanos, ao mercado de títulos do Tesouro, à convertibilidade da moeda e aos efeitos de rede acumulados ao longo de décadas.

O renminbi, apesar do avanço internacional, ainda enfrenta limitações decorrentes dos controles de capital e da menor abertura do sistema financeiro chinês. Por isso, o próprio movimento chinês tem sido gradual.

Na prática, em que pé estamos?

Eu diria que estamos entrando na segunda fase da desdolarização. Quantas fases teremos? Não sei. Mas a primeira fase consistiu principalmente em declarações políticas e acordos bilaterais. Já a segunda, que estamos vivendo agora, é a construção da infraestrutura.

Brasil e China já avançaram bastante. Os dois bancos centrais possuem um acordo de swap cambial de até R$ 157 bilhões, válido por cinco anos. Em junho de 2026, o Banco Popular da China informou que autoridades brasileiras e chinesas estavam discutindo medidas concretas para ampliar o uso de contas em moedas locais, expandir o uso do swap bilateral e estudar a negociação direta entre renminbi e real.

É importante mencionar que, no âmbito dos Brics, a declaração do Rio de Janeiro de 2025 determinou que ministros das Finanças e bancos centrais continuassem trabalhando na Brics Cross-Border Payments Initiative, além de incentivar mecanismos de financiamento em moedas locais.

E, neste mês de agosto, surgiu outro avanço importante: os bancos centrais dos Brics estão discutindo a possibilidade de interligar seus sistemas de pagamentos instantâneos e suas moedas digitais de bancos centrais, CBDCs.

Imagine conectar progressivamente o Pix brasileiro, os sistemas indianos, as infraestruturas chinesas e mecanismos equivalentes dos demais países. O Union Pay tem anunciado avanços nesta parceria com o Brasil.

Por Andrea Penna, especial para o Monitor

Fonte(s) / Referência(s):

Andrea Penna
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