A desdolarização começa pelas margens do sistema, não pelo centro. Cada vez mais, há acordos bilaterais, swaps cambiais, financiamento em moedas locais, sistemas digitais de pagamento e liquidação direta. A observação foi feita por Evandro Menezes de Carvalho, professor da Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense (UFF).
Um dos maiores especialistas brasileiros em China, Menezes explica que ocorre um processo de desdolarização relativa: apesar de ter perdido participação, o dólar ainda representa 57,1% das reservas cambiais mundiais, enquanto a moeda chinesa, o renminbi, tem apenas 2%.
“Quando observamos os fluxos comerciais, a transformação é mais visível. Segundo dados do Banco Central Europeu, o renminbi já respondia, em março de 2026, por aproximadamente 8% do financiamento do comércio internacional via Swift.”

Evandro Menezes de Carvalho (foto divulgação)
“Eu diria que estamos entrando na segunda fase da desdolarização”, acrescenta o professor. “A primeira fase consistiu principalmente em declarações políticas e acordos bilaterais. Já a segunda, que estamos vivendo agora, é a construção da infraestrutura.”
A desdolarização é possível?
Entendo que o processo de desdolarização da economia mundial é possível e inevitável. Mas é preciso advertir que a expressão não é muito precisa, pois pode sugerir um mundo “sem o dólar”. Não se trata disto, mas de perda do domínio do dólar como moeda única de referência nas transações comerciais.
Além disso, também não devemos incorrer na conclusão apressada de que o renminbi [moeda chinesa] irá ocupar o lugar que hoje pertence à moeda norte-americana. Os números mostram por que devemos ser cautelosos. No primeiro trimestre de 2026, aproximadamente 57,1% das reservas cambiais mundiais ainda estavam denominadas em dólares, enquanto o renminbi representava apenas cerca de 2%. Portanto, a superioridade do dólar permanece um fato inegável.
O que está ocorrendo, contudo, é um processo de desdolarização relativa: países procuram aumentar o uso de suas próprias moedas no comércio, diversificar reservas, criar novos mecanismos de pagamento e reduzir a dependência de uma única infraestrutura financeira.
Quando observamos os fluxos comerciais, a transformação é mais visível. Segundo dados do Banco Central Europeu, o renminbi já respondia, em março de 2026, por aproximadamente 8% do financiamento do comércio internacional via Swift, enquanto o dólar respondia por cerca de 81%. Antes da pandemia, a participação chinesa era muito menor.
É justamente aqui que está a mudança estrutural. A desdolarização começa pelas margens do sistema, não pelo centro. Cada vez mais, há acordos bilaterais, swaps cambiais, financiamento em moedas locais, sistemas digitais de pagamento e liquidação direta. À medida que essas redes se conectam, diminui a necessidade de utilizar o dólar como intermediário. O que estamos vendo não é o fim do dólar, mas o fim progressivo do monopólio monetário do dólar.