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Paulo Gala

As regras ocultas do dinheiro global: verdades que a Economia tradicional não explica

Acumulação de ativos e passivos cria assimetrias persistentes que os mercados não eliminam

Publicado em 22/01/2026
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Introdução: O encanamento invisível da economia mundial

Todos nós vemos os grandes edifícios da economia global: o comércio internacional, as flutuações nas taxas de juros, as crises financeiras que estampam as manchetes. No entanto, poucos entendem o “encanamento” contábil invisível que sustenta toda essa estrutura. Assim como em um prédio, é esse sistema oculto de fluxos e conexões que determina o que é possível, quem tem poder e quem arca com os custos dos ajustes. Um modelo matemático rigoroso, baseado na consistência de fluxos e estoques (Stock-Flow Consistent), nos permite enxergar esse encanamento e revela dinâmicas surpreendentes sobre como o poder monetário realmente funciona. Embora o modelo use hipóteses simplificadas para fins de clareza analítica, ele isola forças fundamentais que operam em nosso mundo complexo. Este post irá revelar quatro dessas “regras ocultas”, desafiando o senso comum sobre como o sistema financeiro internacional opera.


O “Privilégio Exorbitante” não é mágico, é contabilidade por que o emissor da moeda global joga outro jogo

A ideia de que os Estados Unidos desfrutam de um “privilégio exorbitante” por emitir o dólar é bem conhecida. Mas o modelo revela que essa vantagem não é imposta de fora, mas nasce da própria lógica contábil. A razão é simples: como todas as transações internacionais são faturadas e liquidadas na sua moeda, a noção de uma “restrição externa” nessa mesma moeda se torna uma impossibilidade lógica. Imagine um mundo com dois países: o país ‘a’ (emissor) e o país ‘b’ (não emissor). O país ‘b’ precisa obter a moeda do país ‘a’ para operar globalmente, criando uma hierarquia que é uma consequência inevitável da forma como as contas são fechadas.

Assim, a assimetria monetária entre os países emerge como consequência lógica da coerência entre fluxos e estoques, e não como imposição institucional exógena.

A implicação mais poderosa é que a política monetária do país emissor (‘a’) pode ser definida com base em fatores puramente domésticos. Essa autonomia não é teórica, está embutida na matemática: o impacto das taxas de juros estrangeiras na economia do emissor é duplamente amortecido. Primeiro, porque o investimento estrangeiro é apenas uma fração de seu gigantesco mercado financeiro doméstico; segundo, porque qualquer efeito é filtrado pela taxa de câmbio. Isso cria um poderoso isolamento que os outros países não possuem, permitindo transferir o ônus do ajuste para o resto do mundo.

A camisa de força invisível: A política monetária do outro país é sempre subordinada

Se o país emissor joga com liberdade, o país ‘b’ (o não emissor) opera dentro de uma camisa de força invisível. Para ele, a taxa de juros não é apenas uma ferramenta para controlar a inflação interna, como diz o manual. Ela se torna, fundamentalmente, um “mecanismo de ajuste externo”. O país ‘b’ é forçado a usar seus juros como uma isca para atrair a moeda estrangeira que ele não pode imprimir, mas que precisa desesperadamente para pagar importações e rolar dívidas. Isso limita estruturalmente sua autonomia para perseguir objetivos econômicos puramente domésticos.

Assim, a taxa de juros em b não é apenas um instrumento de equilíbrio monetário interno, mas também um mecanismo de ajuste externo, condicionado pela necessidade de preservar a solvência em moeda estrangeira e pela disponibilidade de financiamento externo.

Essa dinâmica explica por que tantos países enfrentam dilemas angustiantes entre controlar a inflação (o que exigiria juros altos) e estimular a economia, ou entre manter a estabilidade cambial e evitar uma recessão. É uma escolha que o país emissor da moeda de reserva raramente enfrenta com a mesma intensidade.

O Paradoxo do Gasto Público: Como o Emissor da Moeda Pode Reduzir Juros ao Emitir Dívida
Aqui entramos em um território profundamente contraintuitivo. A sabedoria convencional diz que, quando um governo gasta mais do que arrecada e emite dívida, ele compete por poupança e pressiona as taxas de juros para cima. O modelo, no entanto, revela um resultado paradoxal para o país emissor (‘a’):

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Financiamento via emissão de moeda: Se o governo emissor financia seu déficit simplesmente criando mais moeda, sua taxa de juros não se altera. A expansão fiscal pode até impulsionar a economia real, caso os preços não se ajustem instantaneamente.

Financiamento via emissão de títulos: Esta é a descoberta mais chocante. Se o país emissor financia seu déficit emitindo mais títulos de dívida para seu público interno, a taxa de juros doméstica, na verdade.

Por que isso acontece? A taxa de juros, no modelo, é essencialmente uma fração. Quando o governo emite títulos para financiar seu déficit, a contabilidade do sistema mostra que o numerador dessa fração (ligado à renda nominal menos a criação de moeda) permanece constante, enquanto o denominador (o bolo total de financiamento, que agora inclui esses novos títulos) fica maior. Aumentar o denominador de uma fração com um numerador estável força matematicamente o resultado — a taxa de juros — a cair. É uma consequência aritmética inescapável da estrutura do sistema, que desafia frontalmente a noção de “crowding out”.

Mobilidade de capitais: Não é a solução mágica que parece

A crença comum é que a livre mobilidade de capitais é uma bênção para países que precisam de financiamento. A lógica do modelo, porém, mostra que essa visão é perigosamente incompleta. A mesma liberdade que permite o fluxo de capital para dentro do país (atraído por seus títulos) também facilita, com a mesma intensidade, o fluxo para fora (à medida que investidores domésticos compram ativos estrangeiros). O argumento central é que a mobilidade de capitais pode, na verdade, agravar a restrição externa de um país, forçando-o a fazer ajustes ainda mais dolorosos em sua taxa de juros ou em sua taxa de câmbio para evitar uma crise.

Nesse sentido, a liberdade de capitais não equivale a um postulado de financiamento automático, mas a um ambiente no qual os movimentos de carteira podem tanto relaxar quanto agravar a restrição externa.

Isso sugere que a estabilidade para os países não emissores depende muito menos da simples “liberdade” dos fluxos financeiros e muito mais da “qualidade”, “composição” e previsibilidade desses fluxos. Um sistema financeiro aberto não é garantia de financiamento fácil; pode ser, também, uma fonte de instabilidade estrutural.

Conclusão: repensando a arquitetura financeira global

A análise baseada na consistência contábil nos força a uma conclusão poderosa: as regras do jogo monetário internacional criam uma assimetria estrutural e persistente. Essa hierarquia não é um acidente, um defeito ou uma conspiração, mas uma característica matemática fundamental do sistema como ele está desenhado.

Este olhar contábil oferece um diagnóstico mais profundo que o de modelos econômicos tradicionais. O clássico modelo Mundell-Fleming, por exemplo, assume que a mobilidade de capitais eventualmente resolve os desequilíbrios, tratando a restrição externa como um problema temporário. Este modelo mostra o contrário: a acumulação de ativos e passivos cria assimetrias persistentes que os mercados não eliminam. Já as visões estruturalistas identificam corretamente a restrição, mas a atribuem a fatores “reais”, como a competitividade comercial. A abordagem de fluxos e estoques revela que a restrição é ainda mais fundamental — ela é monetária e contábil, existindo mesmo na ausência de problemas de competitividade.

Modelos como este nos ajudam a ir além das narrativas usuais, permitindo entender por que os desafios econômicos são tão dramaticamente diferentes para países em posições distintas na pirâmide monetária. A questão que fica é inevitável: sabendo que essas assimetrias são uma consequência lógica da própria estrutura do sistema, como podemos desenhar um cenário de cooperação internacional mais equilibrado e estável para todos?

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